Por Kenard Kruel

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Conheci Emerson Araújo labutando, entre poemas, tintas e graxas, na gráfica do pai dele, o venerando senhor Hiran Silva, na Avenida Pedro Freitas, divisa do bairro São Pedro com o bairro Vermelha, em Teresina. Eu estava vindo da Parnaíba. Tinha concluído o Curso Técnico em Administração de Empresa. Precisava enfrentar o vestibular para o sonhado Curso de Letras, na Universidade Federal do Piauí. Albert Piauhy me acolheu e passou a ser uma espécie de tutor meu, cargo que até hoje ele não se empenha em deixar. E eu deixo que assim seja, para despeito do queridinho número um dele, o estatístico, fotógrafo e professor João Batista Mendes Teles. Albert Piauhy tornou-se meu compadre, quando tive a coragem de dar a ele, para padrinho, o meu filho primeiro Rafael Cavalcanti, fruto de muito amor com Maria Rita Cavalcanti. A madrinha é a jornalista e professora Helena Arcoverde, uma das mulheres mais inteligentes e bonitas do pedaço. Hoje residindo em Curitiba, aposentada pela Escola Técnica Federal do Piauí.

Nos meados de 1977, Emerson Araújo lançou Vendedor de Picolé, no Colégio Zacarias de Góis, livreto, ensaio de poesia, por meio de um colega do Bairro São Pedro, que estudava com ele no Liceu Piauiense, chamado Raimundo Nonato. Este, depois se tornou sacerdote católico e nunca mais eu soube notícias dele. Éramos jovens cheios de planos literários. Estudantes do Curso de Letras da Universidade Federal do Piauí, durante o dia, e pecadores das lindinhas, durante a noite, nos bares da cidade. Não havia um específico. O que estivesse aberto e nos aguentasse, era o nosso porto seguro. Não havia a história do bar da época, do point, do famosão. Famosos éramos nós. Porém, no meio da boêmia, pontificava o Bar Acauã, onde, geralmente, a gente aquietava o facho, dormindo, de qualquer jeito, em qualquer lugar do nosso Bar doce Bar. Acauã era do Chico, irmão da Marleide Lins. Era tempo do Emerson Araújo, William Melo Soares, Zé Magão, Wilton Santos, Chico Castro, José Menezes de Morais, Eduardo Lopes, Albert Piauhy, estes mais infiltrados no jornalismo oficial, contaminando-o por dentro com literatura vã. Ao redor, na deles, João Luiz Rocha Nascimento, Airton Sampaio, Bezerra, Leonam, também na prática do jornalismo subterrâneo e na contística já da melhor qualidade. Seriam os Tarântulas da nossa melhor literatura. Mais adiante, com ares de mestres, Durvalino Couto, Arnaldo Albuquerque, Assai Campelo, Edmar Oliveira, Chico Pereira Trevo Art, Etim, Paulo José Cunha etc. As mulheres ainda viviam o regime do talibã. Poucas ousavam cair na pândega. Lembro de uma Marleide Lins, ativa em Teresina, ainda nos dias de hoje, e de uma outra, a Beth Rêgo, que foi marinhar, hoje em algum farol apagado de São Luís. E da Rosa Kápila, que ainda brilha no Rio de Janeiro. Era tempo de reativação da UNE, que uniu Edvaldo Nascimento e Edna Magalhães, do DCE da UFPI, dos CAs, da criação do PT, da CUT, CEPAC, FAMC, da eliminação da pelegada encastelada nos Sindicatos dos Jornalistas, Comerciários, Gráficos, Mecânicos, Construção Civil etc, alguns há mais de 40 anos de mando e desmando. Era tempo de jovens combativos, aguerridos, destemidos, mas também sensivelmente poéticos. Perdulários do amor. E nós nos amamos até hoje. Somos uma geração unha e carne. Nunca largamos um a mão do outro. Não nos vencem a distância e o tempo. Estamos sempre de tocaia, um em campana vigiando o outro.

Emerson Araújo me fez professor. Mesmo já professor, quando numa folga ou outra, ia, como aluno, para vê-lo e ouvi-lo no campo de batalha dele. Voz firme, didática, contínua, sem anotação a desafiar a memória entre nomes de autores, livros, jornais, revistas, períodos, escolas, grupos, clãs, o que sejam. Emerson Araújo é minha inspiração, como professor. Anos depois nos encontramos, nas madrugadas da Universidade Estadual do Piauí, como estudantes de Direito. Nos formamos. Eu ainda me iludi por dez anos, Emerson Araújo, mais prático, nem mesmo tentou. É muito difícil, neste país, vencer as leis do mais forte e do menor esforço, como um dia me disse o professor e também bacharel em Direito Cineas Santos.

O Piauí, como tantos, também não soube amar o Emerson Araújo. E ele se auto exilou em Tuntum MA. Aposentado, poderia estar de pijama fazendo versos para as eternas musas. Porém, sempre atento aos clamores do tempo, tornou-se voz ativa na política e, principalmente, na Educação de Tuntum. Virou novamente caixeiro viajante da Educação, a fazer reuniões, palestras, simpósios, conferências onde um ou dois estiverem em nome da Educação. Tanto compromisso que até hoje, apesar dos reiterados convites, ainda não nos deu a honra de visitar a Ilha Kenardiana. Mas ela está cá, deslumbrante, a esperá-lo, com a trupe. No dia que bater a veneta, virá e estará entre os seus.

O chamo de poeta irmão. Nos últimos anos, tem sido mais, tem sido um pai. A ele, minhas orações. Com fé, esperança e amor.

Kenard Kruel é jornalista, poeta, pesquisador, professor, pescador e urso hibernador a vida toda. É meu irmão de coração, de andanças e desandanças. A melhor homenagem que tive hoje depois dos afagos da minha colibri azul foi este texto memorável.

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