Marília Mendonça, morta aos 26, cantou a sofrência como ninguém

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Foto: Diário de Caratinga

Lucas Breda/Folha de São Paulo

Marília Mendonça, morta aos 26 anos em um trágico acidente de avião, foi uma das mais talentosas artistas da música brasileira contemporânea. A trajetória da cantora, que despontou nacionalmente como um furacão há menos de cinco anos, está repleta de quebra de paradigmas.

A caneta de Mendonça quebra uma certa ingenuidade do eu-lírico feminino no sertanejo. Se anos antes Paula Fernandes sofria pela falta de um parceiro idealizado —nos moldes dos primeiros hits de Taylor Swift nos Estados Unidos—, Marília Mendonça chegava perguntando se ele “faz amor comigo como faz com ela”, em “Como Faz Com Ela”.

Conhecida como a rainha da sofrência, Mendonça cantou o sofrimento por amor como ninguém antes dela. Desde 2016, em seu primeiro álbum, autointiluado, ela se dedicou a retratar a mulher que é traída e inferiorizada em uma relação, o homem cafajeste e a busca pelo romance possível.

“Infiel”, hit que se tornou a música mais ouvida de 2016 e colocou Mendonça no mapa, foi inspirada por uma tia da cantora que havia sido traída pelo marido. “Não ia adiantar passar por um sofrimento, ser traída ou trair, e cantar sobre o príncipe encantado”, ela disse à Folha em 2017.

“Estou te expulsando do meu coração/ Assuma as consequências dessa traição”, ela diz na letra. A cobrança veio no tom exato para cativar as plateias femininas que passaram décadas tentando se encontrar nos versos de eu-líricos masculinos.

O feminejo, que Mendonça encabeçou ao lado de Maiara e Maraísa, Naiara Azevedo e Simone e Simaria, entre outras, chegou como uma revolução no sertanejo, um gênero historicamente dominado por homens. Essa quebra de paradigma pode ser notada na abrangência da obra de Mendonça, admirada por músicos de todos os gêneros.

Uma das vozes mais relevantes da música brasileira contemporânea, Mendonça era uma artista completa. Começou como compositora de hits para duplas gigantes, como Jorge e Mateus, assumiu o centro do palco e despontou para o topo das listas de músicas mais ouvidas, as quais frequentava assiduamente desde que se tornou a artista mais ouvida do Brasil, em 2017, aos 22 anos.

Mendonça tinha noção de seu alcance, e queria levar sua música a todo o país. Entre 2018 e 2019, ela gravou shows em gratuitos em praças públicas de todas as capitais do Brasil. Ela anunciava os shows de surpresa, e conseguia reunir centenas de milhares de pessoas nas gravações que resultaram em seu quarto álbum ao vivo, “Todos os Cantos”.

O álbum é puxado pelo hit “Ciumeira”, faixa que tem uma das frases mais marcantes de suas músicas —”a verdade é que amante não quer ser amante”. Mendonça foi uma das responsáveis por trazer um olhar mais profundo sobre a figura da amante. Sai a destruidora de relacionamentos, entra a apaixonada que é deixada em segundo plano.

Em outra música do álbum, “Bebaça”, ela dividiu os microfones com Maiara e Maraísa, cantando sobre amigas que beberam demais numa noitada. As bebedeiras são temas recorrentes no sertanejo, mas historicamente nas músicas eram reservadas a eu-líricos masculinos.

Supera”, assim como “Bebaça”, traz um diálogo entre amigas, e Mendonça se posiciona como uma conselheira, quebrando também o clichê da rivalidade feminina por um homem. “Para você isso é amor, mas para ele isso não passa de um plano B […] Ele está fazendo de tapete o seu coração/ Promete pra mim que desta vez você vai falar ‘não’. De mulher pra mulher, supera.”

Desde que nomes como Luan Santana, Gusttavo Lima e Jorge e Mateus popularizaram o chamado sertanejo universitário, na virada dos anos 2000 para os 2010, ninguém chegou perto de Marília Mendonça. Pensando a música brasileira de maneira mais abrangente, não é exagero dizer que ela é voz que mais relevante do país nos últimos anos.

Há alguns momentos em que foi possível notar como Marília Mendonça era única em seu meio. Em entrevistas, ela recusava a pecha de feminista, uma palavra quase alienígena no meio sertanejo, mas é praticamente conseso que a cantora se tornou um ícone do movimento.

Em 2018, ela foi uma das raras —se não única— vozes sertanejas a se posicionar contra a eleição de Jair Bolsonaro, aderindo à campanha do #EleNão. Pela alta popularidade do presidente no meio sertanejo, ela chegou a apagar a postagem, mas não mudou de opinião.

Muito querida no meio da música, ela era também um raro exemplo de cantora sertaneja admirada nos mais diversos círculos. O rapper Djonga já cantou que ouvia Marília Mendonça, e não é raro encontrar um funk que sampleie um refrão da cantora. Ela já se declarou fã de rap e de funk, tendo cantado uma música dos Racionais MCs em uma de suas lives.

Foi Mendonça quem escreveu “Cuidando de Longe”, a melhor música de Gal Costa nos últimos anos, com quem também divide os microfones. Ela também surge como “Maravilha Mendonça” em “Sem Samba Não Dá”, faixa do recente “Meu Coco”, disco de Caetano Veloso. Isso sem contar nas participações em músicas de Ivete Sangalo, Leo Santana, Tierry, Xamã e Péricles, entre outros.

O magnetismo de Mendonça pode ser percebido na repercussão de sua morte. De Bolsonaro a Lula, de Ciro Gomes a Sergio Moro, todo mundo tem uma palavra de lamento pela morte da cantora.

Ainda é cedo para calcular o legado de Marília Mendonça, que se foi tão rapidamente quanto despontou para o sucesso, com uma carreira tão curta quanto única. O que se sabe é que, sem a música de Marília Mendonça, sofrer por amor seria completamente diferente.

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